O que os pediatras devem saber sobre deformidades de orelhas

Quando levo minha filha na pediatra, fico imaginando o desafio que deve ser o dia a dia dessa especialidade. São os profissionais da linha de frente. Além do conhecimento em puericultura, eles precisam saber um resumo de todas as outras áreas para saber como começar o tratamento de alguma eventualidade! Realmente muita informação, incluindo sobre deformidades das orelhas.

Pensando nisso, humildemente criei um breve resumo baseado na minha experiência. Espero que ajude muitos colegas!

Um breve resumo sobre o tratamento de deformidades de orelhas

Vivemos um cenário antagônico favorável. As deformidades de orelhas são muito comuns, ocorrem em 1 a cada 20 crianças. Apesar disso, na maioria dos casos são alterações leves a moderadas. A microtia é a situação mais grave e ocorre em 1 a cada 10.000 nascidos vivos.

Dessa forma, a maioria dos casos podem ser tratados com modelagem de orelhas nas primeiras semanas de vida ou com otoplastia a partir dos 6 anos de idade. Deformidades mais graves, a microtia, são tratadas com a neo-otoplastia, um procedimento também realizado a partir dos 5 anos de idade. Vou deixar o link para um texto sobre cada um dos tratamentos para quem quiser saber mais.

• https://drrafaelzatz.com.br/modelagem-de-orelha-entenda-como-e-o-tratamento-que-pode-ajudar-o-seu-bebe/
• https://drrafaelzatz.com.br/o-que-preciso-saber-sobre-a-otoplastia/
• https://drrafaelzatz.com.br/a-tecnica-do-polietileno-poroso-para-orelhas/

Como a família lida, quais são as reações.

É mais comum escutarmos sobre lábio leporino ou bebês que nascem com um dedinho a mais. Pouco se fala sobre microtia, orelha constrita, criptotia, entre outras…além disso, é incomum a detecção de qualquer alteração no ultrassom pré-natal. Dessa forma, os pais não possuem familiaridade com as deformidades de orelha e são apresentados de uma forma abrupta, surpreendente. É natural que apresentem ansiedades e medos. Esses sentimentos são apresentados ao pediatra, através de múltiplas perguntas e, algumas vezes, descargas emocionais como direcionamento de culpa, desespero, entre outras.

Um passo a passo aos colegas

Apesar de serem todas crianças, cada idade possui particularidades no atendimento.

1. Antes do nascimento/aconselhamento genético

Poucos pediatras lidam com essa situação, mas é muito importante mencionarmos. As deformidades de orelha possuem diversos padrões de herança. As orelhas de abano, por exemplo são de herança autossômica dominante apenas em 5-10% da população caucasiana. As microtias não possuem padrão de herança mendeliano. Assim, é difícil conseguir prever que uma criança apresentará uma deformidade de orelha apenas examinando os pais. A exceção a esta situação são algumas síndromes de padrões de herança bem estabelecidos. A síndrome de Goldenhar (um “tipo” de microssomia) é um exemplo de sempre ter herança dominante.

Outro ponto pré-natal muito importante é o uso de substâncias teratogênicas. Aqui destaco uma muito comum para a acne! O uso de isotretinoína (Roacutan®) é associado a ocorrência de microtia na criança. Um grande alerta a obstetras e dermatologistas!

2. Nos primeiros dias

Essa é a dica de como lidar logo após a descoberta, no primeiro contato. O primeiro passo de tudo é reafirmar que não foi culpa dos pais. Se pulou para essa parte, leia o item anterior.

O objetivo é amenizar o sentimento ruim da descoberta negativa, retirar o sentimento de culpa! Uma ótima forma de ajudar é orientar que existe tratamento, desde o nascimento, com bons resultados a longo prazo!! A criança não precisa mais sofrer pela deformidade de orelha.

Após esse primeiro impacto e o acolhimento psicológico, o pediatra costuma seguir sua rotina:

1º Analisar com calma a deformidade, verificar se há atresia do canal auditivo.
2º Afastar outras anomalias de face ou tronco, excluir síndromes.
3º Avaliar a parte funcional através do Teste da orelhinha – Triagem Auditiva Neonatal (Emissões Otoacústicas Evocadas). Em casos de alterações, geralmente sugiro a realização do BERA (Potencial Auditivo de Tronco Encefálico Automático – PEATE) e avaliação com um otorrinolaringologista especializado.

3. Durante o desenvolvimento da criança

Para pacientes que possuem deformidades de orelha, principalmente as mais severas, 4 pontos são essenciais

A. Otite média

• Todas as otites médias devem ser rapidamente tratadas, mas quando o paciente já possui uma perda auditiva, esse limiar deve ser menor. O objetivo é evitar uma perda auditiva do lado não acometido, o que seria bem impactante a essa criança. Evitar adicionar uma perda de condução.

• Pacientes com atresia de conduto podem ter otite também! O diagnóstico é mais desafiador e por isso deve sempre ser lembrado. O limiar para tratamento com antibióticos também deve ser menor.

B. Desenvolvimento de fala e linguagem

A audição é fundamental neste quesito! Pacientes que possuem o menor sinal de comprometimento de desenvolvimento devem ser avaliados tanto por otorrinos quanto por fonoaudiologistas especializados.

C. Hipoplasia de mandíbula

Alguns pacientes com deformidades de orelhas possuem a mandíbula menor em um lado da face. É uma situação muito vista em pacientes com microssomia hemifacial. O seguimento com odontologista é indicado para orientar os pais como será a evolução de dentição do paciente e quais os tratamentos possíveis.

D. Bullying e impactos psicológicos

Item muito conhecido por sua importância. Já é muito conhecido o impacto psicológico, social e profissional que as deformidades de orelha podem acarretar. O apoio de um psicólogo pode ser muito benéfico não só à criança, mas a todos os familiares.

Momento de encaminhar ao especialista para reconstrução.

Existem 2 momentos para o encaminhamento. O primeiro deles é o mais intuitivo, quando for possível o tratamento.

• Em recém-nascidos: o quanto antes! A modelagem de orelhas deve iniciar até a 6ª semana de vida. Contudo, observamos que pacientes que iniciam mais cedo costumam ter resultados melhores.
• Para otoplastia e neo-otoplastia: recomendo a primeira consulta a partir dos 5 anos de idade.

O segundo momento é quando há muita tensão e ansiedade na família. Nesses casos, a consulta com um especialista ajuda muito os pais por entenderem melhor o que o filho deles apresenta e saber o que esperar quanto ao tratamento. Costumo receber famílias nessas situações e sempre percebo um sentimento de maior tranquilidade após a consulta.

Independente do momento, independente da deformidade, eu e minha equipe sempre estamos à disposição para nossos colegas de profissão. Espero que esse texto ajude muito no dia a dia do atendimento a pacientes com deformidades de orelhas.

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