Como lidar com o medo de uma cirurgia

É muito comum um paciente comentar comigo que quer fazer uma cirurgia, mas tem medo. Mas será que existe alguma forma de como lidar com isso? Nesse artigo, eu te dou algumas dicas para vencer o medo.

O medo é a nossa reação natural ao desconhecido, uma vez que temos receio que algo possa ser nocivo, perigoso. Assim, a minha resposta ao paciente é fornecer informação de como é o procedimento, quais são os seus riscos, passos e sua previsão de resultados. Quando tornamos o desconhecido em familiar, o medo é transformado em coragem e determinação!

Vamos agora abordar cada um dos principais medos associados a uma cirurgia.

Medo da anestesia

A anestesia amedronta muitos pacientes, sobretudo a anestesia geral. Alguns tem receio de ter alguma complicação, como parada cardíaca. Outros tem receio de não “pegar a anestesia” e sentir dor ou ficar acordado durante o procedimento.

Essas preocupações são heranças das anestesias antigas, quando havia menos conhecimento e tecnologia. Assim, era realizada de forma menos controlada, com maiores complicações.

A anestesia moderna é realizada por um médico que se especializou 3 anos no assunto, ou seja, possui amplo domínio das medicações e dos dispositivos que serão utilizados. Saberá a dosagem certa de cada medicação para cada paciente.

Além do médico especialista, diversos itens foram criados para dar mais segurança ao procedimento:

• Avaliação pré-anestésica para identificar os riscos anestésicos do paciente.
• Check list sobre alergias a medicamentos.
• Materiais de via aérea difícil disponíveis para todos os procedimentos.
• Monitorização de saturação, temperatura e do ritmo cardíaco durante todo procedimento.
• Monitorização no nível de sedação do paciente.
• Avaliação clínica constante do médico anestesista durante a cirurgia.
• Medicamentos que são liberados apenas após testes de segurança pela ANVISA.
• Protocolos de resposta rápida para as principais complicações.

Sempre comento que sempre haverá risco de alguma complicação anestésica ocorrer. Nunca será 0. Contudo, esse risco se torna mínimo quando há um médico especialista no assunto associado a diversos dispositivos de segurança. A anestesia é um procedimento seguro.

Medo de alergia

A alergia a medicações pode ser grave, com repercussões sérias no nosso corpo. Por isso, as enfermeiras e os médicos sempre perguntam, diversas vezes, se há alguma alergia conhecida. Se existe, o medicamento é logo retirado da sala de cirurgia.

E se o paciente não conhece alguma alergia e vai operar?

Sempre brinco que o melhor momento para se ter uma alergia a um medicamento é durante uma cirurgia, já que há um médico (o anestesista) que fica constantemente vigiando o paciente durante todo o procedimento. Ela identificará rapidamente qualquer sinal de alergia e já realizará as medicações necessárias para a reversão. O paciente receberá toda a assistência necessária.

Medo de alguma complicação

Todos os procedimentos cirúrgicos possuem possíveis complicações locais e sistêmicas (do corpo todo).

As complicações locais são as mais relacionadas à cirurgia, como o acúmulo de sangue (hematoma), infecção ou abertura de pontos. A melhor forma de evitar que ocorram é seguir rigorosamente as orientações médicas no pós-operatório.

Quanto as complicações sistêmicas, as principais são a trombose, a embolia pulmonar e a hipotermia. Para evitá-las, realizamos os seguintes métodos preventivos:

• Utilização de meias elásticas e compressores para procedimentos prolongados.
• Aplicação de anticoagulantes em casos de maior risco.
• Estimular caminhadas precocemente após a cirurgia.
• Utilizar mantas térmicas para minimizar a perda de calor.
• Expor o mínimo possível do paciente durante a cirurgia.

Medo do resultado

Esse é um dos medos mais frequentes! Se o paciente não tem familiaridade com o procedimento, é muito difícil imaginar qual será o resultado. Por mais que veja fotos de outras pessoas, não há a certeza de que o mesmo acontecerá no seu corpo.

Esse sentimento é resolvido quando o cirurgião passa a previsibilidade de resultado, um item muito importante da consulta pré-operatória. Após examinar o paciente e indicar o procedimento, sempre comento qual é o meu objetivo, qual é o resultado que espero obter. Inclusive, simulo no corpo do paciente qual é o movimento ou transformação que buscamos.

Essa personalização da previsão de resultados é extremamente importante e costuma amenizar em muito o receio de como será o resultado.

Medo de não aguentar o pós-operatório

Esse receio é identificado em pessoas que possuem uma grande sensibilidade a dor ou quando há a intenção de procedimentos combinados. Diversas medidas são eficazes para dar mais segurança e tranquilidade aos pacientes:

• O cirurgião precisa explicar com detalhes como será os cuidados pós-operatórios e o quanto ele espera de dor ou limitação de movimentos.
• Ter medicações analgésicas de horário e de resgate para controle da dor.
• Conversar com outros pacientes que realizaram o mesmo procedimento, idealmente com a mesma equipe cirúrgica.
• Se preparar adequadamente para o pós-operatório, principalmente respeitando as orientações de restrição de atividades.

Estar sem medo para operar

Após ter entendido tudo sobre o procedimento, o medo de operar se esvai e uma confiança surge. O paciente agenda o procedimento.

Nos momentos que precedem a cirurgia, é natural que um medo apareça novamente, é o famoso “frio na barriga”. Sabendo disso, procuro estar próximo ao meu paciente, fornecendo o apoio final para passar por esse processo com tranquilidade. Adoro escutar “foi super tranquilo” ou “deveria ter feito antes!”. São exemplos de frases que refletem a satisfação com a experiencia cirúrgica, a felicidade que tomou o lugar do medo.