O que é microtia?

Já comentamos dos diversos tipos de orelhas e as possibilidades de tratamentos. Vamos agora esclarecer todas as dúvidas sobre a deformidade congênita mais grave, a microtia, algumas vezes popularmente chamada de orelhinha ou apenas sem a orelha.

A orelha da microtia

A orelha da microtia possui uma deformidade grave da parte do arcabouço de cartilagem. Ao exame, observamos apenas um resquício de cartilagem malformado na região da orelha.

Existem algumas diferenças nos casos de microtia, mas observamos algumas tendências:

  • A condição é rara, ocorre em 1-4 crianças a cada 10.000 nascidas.
  • 80% dos casos são unilaterais (ocorrem apenas em 1 lado)
  • A microtia ocorre mais no sexo masculino e mais do lado direito.
  • A deformidade pode ser bilateral. Nestes casos há uma maior chance de outras malformações.

Classificamos a gravidade da microtia em 4 graus (Classificação de Weerda-Aguilar)

  1.  Orelha de tamanho menor, mas com bom desenho
  2. Orelha menor e malformada, mas com alguns componentes reconhecíveis.
  3. Orelha malformada, sem componentes reconhecíveis.
  4. Malformação completa – anotia

Alguns casos apresentam o conduto auditivo mais estreito ou totalmente fechado. Existe uma outra classificação para essa ocorrência.

Qual é a causa?

A microtia pode ocorrer por herança genética. Contudo, observamos muitos casos sem um padrão familiar conhecido e não relacionado a nenhuma síndrome. Esses pacientes são o que chamamos de esporádicos, em que se desenvolveu por algum erro na formação do bebê. Identificamos alguns fatores de risco para o desenvolvimento de microtia esporádica:

  • Diabetes
  • Anemia
  • Doenças agudas no primeiro trimestre
  • Exposição a alta altitude
  • Idade materna avançada
  • Baixo peso
  • Uso de medicações, como ácido retinóico, roacutan e a talidomida
  • Consumo de álcool

O ácido folico é um fator protetor, reduz a ocorrência da microtia.

A microtia pode ter outras malformações ou síndromes?

Sim, especialmente nos casos bilaterais (dos dois lados).

Cerca de 40% dos pacientes com a condição possuem outras malformações, sendo as mais frequentes as fissuras labiopalatinas (lábio leporino), assimetria facial, renal, cardíaca, ocular, polidactilia ou anomalias vertebrais.

A síndrome relacionada a microtia mais conhecida é a síndrome de Treacher-Collins. A mais frequente é a ocorrência com a microssomia facial. Existem diversas outras síndromes que apresentam a condição, no entanto.

O paciente de microtia tem uma deficiência auditiva?

A nossa audição possui 2 fases.

  1. Condução: realizada pela orelha externa e orelha média
  2. Neurossensorial: realizada pela orelha interna

Fonte da imagem: Netter

A microtia é uma malformação da orelha externa, a parte que vemos. A maioria dos casos possui a deformidade de apenas 1 lado (unilateral) e sem malformação da orelha interna. Assim, a maioria dos pacientes possui uma perda de condução, mas não possui deficiência auditiva. Do lado afetado, possui a parte neurossensorial funcionando e audição total do lado não afetado.

Na prática, as crianças com microtia desenvolvem a fala e a linguagem normalmente! Com o tempo podem perceber que possuem certa dificuldade para localizar estímulos sonoros e distinguir sons em ambientes barulhentos, mas são alterações leves, pacientes com microtia unilateral possuem deficiência auditiva leve.

Esse panorama muda quando o paciente possui microtia bilateral e/ou malformação da orelha interna, a parte neurossensorial (10% dos casos de microtia).

Que exames são necessários para detectar?

O primeiro contato médico do paciente com microtia é com o seu pediatra, descrevi essa rotina com retalhes em outro texto.

O pediatra analisa com calma a deformidade, verificar se há atresia do canal auditivo, afastar outras anomalias de face ou tronco, exclui síndromes. Após esse exame físico minucioso, o paciente deve ser submetido ao teste da orelhinha ainda na maternidade – Triagem Auditiva Neonatal (Emissões Otoacústicas Evocadas). Esse exame é o primeiro passo da avaliação auditiva da microtia.

Se o teste da orelhinha apresentar alguma alteração, é indicado um exame que se chama BERA (Potencial Auditivo de Tronco Encefálico Automático – PEATE). Esse exame tem o objetivo de determinar se existe ou não perda auditiva na microtia, qual é o tipo e grau da deficiência. Esse exame não é invasivo, é indolor e extremamente importante! Sugiro a interpretação do exame por um otorrinolaringologista especializado.

A orelha da microtia cresce com o tempo?

Esse é um mito muito comum envolvendo microtia. A cartilagem malformada cresce na mesma proporção da criança. Assim, o formato atual é mantido, a orelha não mudará de desenho com o crescimento.

Como é o tratamento para a condição?

Me perguntam muito se microtia possui cura. O paciente é cuidado de acordo com os seus sintomas. Os que possuem déficit auditivo devem ter um seguimento com um otorrinolaringologista e uma fonoaudióloga especializados para realizar a reabilitação auditiva.

Eu realizo o tratamento cirúrgico para a reconstrução total da orelha do paciente com microtia. A reconstrução pode ser realizada utilizando cartilagem da costela do paciente ou com uma prótese de polietileno poroso (Medpor, Omnipore). Tenho preferência pelo Medpor para a microtia pelo fato de ser um procedimento único, menos doloroso, pode ser indicado a partir dos 5 anos de idade e possui ótimos resultados estéticos. Aconselho que leia um artigo completo que desenvolvemos sobre essa cirurgia para reconstruir a microtia..

Quando deve ser a consulta?

A microtia é diagnosticada no neonato, nos primeiros dias de vida. Um seguimento adequado deve ser realizado com o pediatra. Nos pacientes que contam ainda com a perda auditiva, um seguimento com otorrinolaringologista e fonoaudióloga é indicado. A parte da reconstrução só poderá ser realizada ao redor dos 5 anos, então a consulta pode ser adiada.

Algumas famílias entram em contato para entender melhor como é o tratamento, o que esperar e até receber algumas indicações de outros profissionais. Sabemos que há uma sobrecarga psicológica nos pais, uma mistura de medo, culpa e ansiedade. Minha equipe está bem-preparada para ajudar os pacientes com microtia, orientando o que devem realizar e quais serão os próximos passos. Você pode entrar em contato conosco pelos links nesse site, enviando uma mensagem, e-mail ou ligação. Te aguardo no consultório!