Em todas as minhas primeiras consultas, pergunto ao paciente se possui algum problema de saúde (comorbidade) e quais medicamentos faz uso contínuo (toma todo dia). O objetivo é adaptar as orientações da cirurgia para aquele paciente. Alguns problemas de saúde demandam cuidados especiais. Algumas medicações podem ser mantidas, outras devem ser paradas para uma cirurgia. Vamos entender agora.
Remédios que não preciso parar para uma cirurgia
1. Anti-hipertensivos e outras medicações cardiovasculares que não são anticoagulantes
Essa talvez tenha sido a situação mais encontrada. Grande parte da população utiliza medicações para controlar a pressão. Como os meus procedimentos não envolvem a perda de muito sangue, não ocorrem grandes mudanças no equilíbrio do corpo. Assim, orientamos a manter essas medicações, tomando inclusive no dia da cirurgia:
• Losartana.
• Anlodipino.
• Hidrocolotiazida.
• Propranolol.
• Etc…
Ao tomar a medicação, o paciente manterá a pressão controlada durante a cirurgia e evitará a ocorrência de hematoma ou a necessidade de aprofundar a anestesia.
Essa orientação é uma decisão conjunta minha e da equipe de anestesia. Sempre que sentimos a necessidade, solicitamos o parecer do cardiologista, como em pacientes de mais idade ou com doenças mais graves.
2. Medicações psiquiátricas, incluindo de distúrbio do sono
Outro grupo de medicamentos muito corriqueiro e que deve ser mantido durante a cirurgia. Essas medicações não interferem com o procedimento ou com a cicatrização. Pelo contrário, irão nos ajudar ao deixar o paciente calmo, motivado, psicologicamente bem com o procedimento.
3. Outros medicamentos
Existem diversas outras classes de medicamentos que podem ser mantidos. Inclusive, é muito mais comum do que encontrar remédios que devem ser suspensos ou alterados. Então vamos para esse outro grupo.
Medicamentos que preciso parar ou mudar para uma cirurgia
1. Anticoagulantes
Popularmente conhecido como medicamentos que “afinam o sangue”, os anticoagulantes devem ser suspensos na grande maioria das vezes. Essa decisão é tomada com base no caso do paciente, o risco de vir a ter algum evento ruim se suspender a medicação para a cirurgia.
Apesar da orientação ser bem personalizada, o tempo de antecedência que deve ser suspenso é bem padronizado:
• Aspirina: 10 dias.
• Varfarina (Marevan®): 5 dias antes e dosar INR antes da cirurgia.
• Rivaroxabana (Xarelto®): 24 horas em cirurgias comuns, mais tempo pode ser necessário em cirurgias com alto risco de sangramento.
• Heparina (Clexane®): 24 horas de antecedência.
2. Medicamentos para perda de peso e controle de diabetes
Primeiro vamos comentar sobre os pacientes que dependem do uso de insulina. A medicação não deve ser suspensa, apenas ajustada conforme a cirurgia e o uso do paciente. Dessa forma, a estratégia é mais uma vez personalizada e muitas vezes aconselhada pelo endocrinologista, mas de forma geral, o objetivo é que seja reduzido para 50-70% da dose. O controle glicêmico no pos operatório deve ser mantido de forma rigorosa, sem passar de níveis de 200 mg/dL e evitando episódios de hipoglicemia.
Agora vamos aos antiglicêmicos orais. Esse grupo é muito importante pois têm sido utilizados com frequência para perda de peso. A preocupação não é quanto aos níveis de glicemia. As seguintes medicações deixam o nosso estômago e intestino mais lentos, retardando o esvaziamento gástrico e aumentando o risco do paciente broncoaspirar durante a anestesia. Dessa forma, a antecedência de suspensão deve ser respeitada rigorosamente:
• 10 a 14 dias antes
o Semaglutida – Ozempic®
o Delaglutida – Trulicity®
• 3 dias antes
o Liraglutida – Saxenda®, Victoza® e Xultophy® o Dapaglifloxina – Forxiga® e Jardiance®
A metformina é um medicamento antiglicêmico também, mas não interfere no trato gastrointestinal. Precisa ser suspendido 1 dia antes do procedimento para evitar acometimento dos rins e acidose.
Um alerta
Algumas medicações, inclusive fitoterápicos, apresentam efeitos colaterais que podem interferir com a cirurgia, como exposto com os remédios para diabetes acima. Outro exemplo muito comum é o Ginko biloba, utilizado para melhorar o rendimento cerebral, mas que possui ação de anticoagulação.
A melhor forma de evitar algum problema mais grave em seu procedimento cirúrgico é passando ao médico todas as medicações e buscando sua orientação. Esse é um passo básico da primeira consulta, como comentamos em outro texto.
Espero que esse guia ajude muitas pessoas em seu preparo cirúrgico, apesar de nunca poder substituir a orientação pré-operatória do cirurgião. Aquela que faço na minha primeira e segunda consulta pré-operatoria. Entre em contato conosco para conhecer um pouco mais da nossa rotina de atendimento aos pacientes. Aguardo você aqui no nosso consultório!
