Neste artigo, vamos entender mais sobre a técnica do polietileno poroso para a cirurgia da neo-otoplastia.
As deformidades mais graves de orelhas podem ser vistas em 2 situações:
1. Deformidade congênita: microtia ou anotia
2. Deformidade adquirida: Infecções graves ou traumas, como queimaduras e mordeduras animais.
Quando a estrutura está muito deformada ou mesmo ausente, o procedimento para o seu tratamento requer a criação de uma nova orelha, o que chamamos de neo-otoplastia.
Neste procedimento, há a necessidade de montar uma nova estrutura e cobrir um um tecido adequado. Classicamente, essa estrutura era feita com cartilagem da costela. Contudo, tenho realizado uma técnica mais moderna, na qual utilizo uma prótese de polietileno poroso (Medpor® ou Omnipore®). Vejo que essa técnica tem algumas vantagens em relação a cirurgia com cartilagem costal:
• Pode ser realizada a partir dos 5 anos. A técnica com cartilagem costal é melhor realizada em torno de 10 anos de idade.
• É realizada em tempo único, a cartilagem costal exige 2 tempos cirúrgicos.
• Melhor resultado estético.
• Pode ser feita antes ou depois da reabilitação auditiva.
• Pode ser realizada em áreas de trauma ou sequelas. A cartilagem costal não pode ser realizada se houver alguma cicatriz no local da orelha.
• Mais indicada quando há baixa implantação do cabelo, como na síndrome de Treacher-Collins.
• Sem necessidade de retirada de cartilagem: não gera deformidade no tórax e tem um pós-operatório mais tranquilo.
Como nem tudo é perfeito, precisamos apontar as desvantagens também:
• Risco de 3-4% de complicações (Cartilagem costal 1-2%)
• Custo da prótese (se o convênio não cobrir)
Após examinar o paciente e entender sua demanda e expectativa, invisto um bom tempo explicando os prós e contras dos dois procedimentos. Particularmente prefiro o Medpor ou Omnipore, mas essa é uma decisão que tem que ser tomada em conjunto com o paciente. Para esclarecer mais sobre o procedimento, vou deixar as principais perguntas que já recebi.
Como é a cirurgia do Medpor ou Omnipore?
O procedimento é realizado sob anestesia geral, com duração ao redor de 6 horas. Início o procedimento levantando uma estrutura que fica acima da orelha, que chamamos de fáscia temporoparietal. Ela é essencial ao procedimento, já que cobrirá totalmente a prótese.
Uma vez levantada, posiciono a prótese na região e a cubro com a fáscia. Diversos pontos são dados para posicionar as estruturas para que não saia do lugar. Uma vez segura, a sucção a vácuo é instalada, para criar o contorno da orelha. A fáscia então é coberta pela pele que havia no local da orelha e por pele retirada de outro local (enxerto), frequentemente da região inguinal que fica mais escondida. Quando o procedimento está finalizado, um curativo é feito para manter a compressão e estabilização de toda essa estrutura.
O resultado é imediato?
Não. A nova orelha incha muito e permanece assim por alguns meses, perdendo todo o contorno que esperamos. Após cerca de 3 meses, o inchaço começa a sair e o contorno tão almejado retorna.
Como é a recuperação do Medpor ou Omnipore?
O paciente recebe alta no dia seguinte. A maior restrição é quanto às atividades físicas e realizar esforços. Pode comer o que quiser e seguir suas atividades rotineiras. Os pacientes evoluem muito bem, controlam a dor com analgésicos comuns. Existem apenas dois cuidados essenciais:
• Não deitar em cima da área operada
• Não molhar o curativo
Precisa utilizar um molde?
Sim. Mantenho um molde no período noturno por alguns meses. Ele auxilia a manter a projeção da orelha, evitar que fique muito grudada na cabeça, principalmente na porção superior.
As orelhas ficam diferentes?
Essencialmente sim, mas realizo um planejamento minucioso para que seja a maior semelhança possível:
1. Realizo medições e cálculos do posicionamento ideal da nova orelha.
2. Se o paciente tem a deformidade de um lado só, realizo um SCAN 3D da orelha do outro lado. Tenho uma equipe que utiliza programas para inverter essa imagem e imprimir um modelo 3D que posso esterilizar. Assim, tenho o que seria a orelha perfeita durante o procedimento para me guiar e criar o desenho mais parecido possível.
3. Quando o paciente ainda é criança, calculo quanto será o crescimento restante da orelha não acometida e realizo a nova um pouco maior. Quando estiver na idade adulta, elas terão tamanhos muito parecidos.
A nova orelha é personalizada?
Sim. A prótese de polietileno poroso pode ser customizada e adaptada ao que o médico, o paciente e os familiares desejam.
Quando é microtia, o que já tem é aproveitado?
A orelha malformada é composta de pele e cartilagem. A pele é 100% reaproveitada. A cartilagem pode ser utilizada para criar um formato mais natural para o lóbulo ou o tragus, aquela parte que fica na frente do conduto auditivo.
O Medpor ou Omniopore tem rejeição?
O polietileno poroso é biocompatível, ou seja, é aceito pelo nosso corpo. Não há rejeição. O que pode ocorrer é sofrer uma infecção e perder sua cobertura, o que chamamos de extrusão. Sabendo disso, tenho uma rotina intensa de cuidados para que não ocorra: imergir a prótese em antibiótico (ATB) antes de colocar, lavar a região com ATB, manter ATB na veia e em casa após a alta hospitalar.
O convênio cobre o procedimento de neo-otoplastia com Medpor ou Omnipore?
Sim. Seja congênita (microtia / anotia) ou adquirida, as deformidades mais graves de orelha são corrigidas por procedimentos reparadores. Explico mais a fundo essa cobertura neste link.
Mais dúvidas?
Sei que é algo muito importante tanto para o paciente quanto para suas famílias e criei com carinho esse resumo das principais informações. Naturalmente, novas dúvidas surgirão. Entre em contato comigo pelo Instagram ou com minha equipe pelos links aqui no site. Certamente poderemos esclarecer melhor algum ponto e levar mais confiança para realizar esse procedimento tão interessante!
